terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Oficina do Diabo

Você, tão dentro e tão fundo,
e aquele vazio feito suspiro
tornado-se noite.

Às vezes eu penso nele. Não, dessa vez não é no meu coração. Às vezes eu penso no Oswaldo Montenegro. Ele nem é um dos meus compositores preferidos nem nada assim (tem até algumas canções bem bobinhas), mas eu penso nele. Por que eu penso nele? É que, um dia, conversando com amigas, uma delas disse (e as outras concordaram) que devia ser complicado ser a Paloma Duarte e saber que ele amou tanto e tantas mulheres antes, especialmente Madalena, amiga e parceira – eu sei, conversa antiga, faz tempo que Oswaldo e Paloma não estão juntos, mas eu sou assim: antenada (#not).  

Mas daí de vez em quando penso no Oswaldo, nas minhas amigas, nessa inquietação com os grandes amores passados: ué, e não é bom? Quero dizer, a capacidade de amar não é igual fluido de isqueiro pra gente dizer: ah, tá quase acabando! Não é algo que se gasta, é – penso eu – mais como um aprendizado, sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre o par. Quanto mais, melhor. Eu acho confortador pensar que ele, meu cara hipotético (como a tia hipotética do Verissimo – obrigada, Rita!*) tem um histórico de sensibilidade, entrega, envolvimento. Acho assustador – sempre achei – envolver-me com alguém que me diz que nunca amou antes. Acho bonito – e verdadeiro – dizer que nunca amou antes como ama agora. Faz sentido, a forma como a gente ama cada pessoa passa um pouco pela nossa estrutura, pelo jeito de amar que vamos construindo; e outro tanto pelo que a outra pessoa demanda, por quem ela é, pela que ela nos dá e pelo que precisa. Assim, cada amor é peculiar, o que me parece bem mais interessante que ser único.

Nunca achei que querer bem precisasse de balança e daí nunca entendi essa demanda de ser a única marca no outro. Ser a última, vá lá, não é uma necessidade que me domina, mas consigo entender e, de vez em quando, até alimentar.  Mas precisar de exclusividade é demais pro meu pouco juízo.   

Quando penso no Oswaldo, penso também no medo que as pessoas têm do passado do outro. Como quase todo mundo prefere que o seu amado não tenha relacionamento (ou tenha maus relacionamentos) com quem ele já esteve envolvido. Ora, penso eu, ser amigo, gentil e generoso com quem se amou não devia ser considerado falha de caráter. É, no mínimo, coerente. Não é porque se deixou de desejar alguém que ela passa a ser má pessoa, não é? (excluídos aqui os casos em que a pessoa em questão é, sei lá, realmente cruel, manipuladora e outras fofuras assim). 

De maneira geral, o desejo se vai, mas a pessoa – aquela com quem se dormiu, chorou e riu junto, aquela que segurou sua mão no enterro da sua avó e fez companhia na doença do cachorro – continua sendo admirável: acolhedora, bem-humorada, inteligente e faz aquele café preto e sem açúcar no ponto. Porque mesmo o hipotético cara deveria automaticamente deixar de apreciá-la e apagá-la da sua vida como se ela não tivesse importância, não tivesse dado o primeiro livro do Caio Fernando Abreu, não tivesse convencido a ouvir a Sinfônica na praça ou apresentado Buster Keaton? O hipotético é quem é, também, por causa das pessoas que amou e que o amaram.

Eu sei, agora pelo outro lado da janela, que quando um relacionamento acaba, quem a gente era naquele relacionamento morre. Isso dói. Às vezes a saudade de quem éramos naquela relação machuca mais que a ausência do outro. E nem sempre conseguimos conviver com o fantasma de quem fomos. E, quase sempre, é mais de um fantasma. Porque morre quem a gente era e morre também quem a gente acha que seria. Morre quem a gente planejou, a pessoa que achamos que seríamos, tão mais feliz, resolvida e realizada do que quem a gente é na vida real. É difícil abrir mão desses eus que seriam tão felizes. É difícil fazer o luto pela relação, pelas esperanças, por nós, é difícil velar esse vazio e angústia que nos ocupam. Mas não é nada difícil, pra mim, entender que, depois do choro e vela, a dor virando memória, as belezas vividas possam manter boas amizades ou, pelo menos, relações cordiais de carinho, admiração e respeito mútuos.

Quando penso no Oswaldo, penso um tanto no Vinícius (guardadas as proporções da poesia). Penso que é bonito amar intensamente. Penso que deve ser um privilégio ser amada assim, com tanta verdade. Penso que não é à toa que suas ex-mulheres os estimam. Penso que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”. Penso que se perde muito tempo com medos, quando riso, aceitação e  cumplicidade é tão melhor.  E fico achando que tenho tanto tempo e tanta coisa pra pensar - até no Oswaldo, ai ai - porque coração vazio é oficina do diabo (o ditado não é assim, mas minha vida é).


*saiba mais apertando aqui.

12 comentários:

Atitude do pensar disse...

Preciso dizer que estou com MUITAS saudades daqui?!
Meu melhor amigo é o meu primeiro amor. Hoje, ele namora minha melhor amiga, nos encontramos, no mínimo, 2 x por semana.
Ainda converso com outros ex, pois procuro respeitar o amor vivenciado por ambos. Até porque não acredito que um amor acaba, mas que ele se transforma em outra espécie de amor, como eu e o Raul,que agora, é o amor da Paula.
Porém, nem sempre foi assim, já tive ciúmes de ex amor, até compreender que não há como fugir. Afinal, fica registrado na nossa vida, e as marcas do que fora, ainda permaneceram, então, porque não transformá-las em obra de arte através da amizade...
Bjus de saudades, linda Borboleta!

Luana disse...

Existem otinas lembranças sim, mas contato? Isso ja eh quase impossível.. Porque virar amigo eh, pra mim, como o inverso de uma promocao... Voce eh "rebaixado" de posto... E fica estranho...

Nao desejo que meu atual não tenha ex, alias, que tenha tido grandes amores e me reconheça também como grande amor...

Eh ruim ser "comparada" com nada, bom mesmo eh ser "comparada" com o muito!

um beijo

caso.me.esqueçam disse...

menina que coincidencia assustadora. tava falando disso antes de ontem com... um ex :)

uma anedota.

tava contando a ele que, na epoca em que a ex dele era bem importante na vida dele, eu morria de ciumes, mas alguma coisa me acalmava. era o amor que ele ainda dava a ela, mesmo diante dos meus chiliques. ele sempre foi fiel. e essa fidelidade à ela, bizarramente me acalmava. dai, quando o ex virou ex e o atual virou atual, eu disse a este "o outro eu amo muito e vai ta sempre na minha vida. a situacao eh essa". e foi tudo tao lindo, sabe. e eh tudo tao lindo... entre todo mundo. esse negocio de amar, quando eh de verdade...

Danielle Martins disse...

Se eu for pensar em Vinícius e Pensar que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”, então tem uma vida e tanto minha querida amiga!
Bjs!

Rita disse...

As taxas de amor na blogosfera atingindo níveis estratosféricos, aponta estudo.

Comanda Jonas disse...

Borboletas batem asas e pronto: explicam o amor. Lu, você escreveu em vôo?

Niara de Oliveira disse...

Rita observou bem. É muito amor, gente. Tá transbordando... Mas enquanto lia as palavras da Lu via as cenas do filme Cópia Fiel. Pode isso, produção?
Quando amamos nos misturamos com a outra pessoa e saímos de cada amor uma pessoa nova, alterada por essa interação intensa. Acho que é assim com todo tipo de amor.
Por isso também não vejo problema algum em amar alguém que já amou muito e muitas. Esse a quem amo, é único e só existirá pra mim. Com a próxima ou próximo ele será outro, a quem não conheço e do qual não sinto ciúmes. Me fiz entender?
Sou assim, arrogante mesmo. Me acho única e exclusiva. Rá!!!

Tem como não amar essa borboleta?

Menina no Sotão disse...

Eu não sei o que dizer agora, porque acho que amar alguém é amar o seu presente e compreender o velho bordão "como se fosse a primeira vez" porque será e não importa se serão milhares de pessoas antes ou depois, será sempre diferente e será a primeira vez a sentar-se num sofá para um diálogo que termine em sorrisos, toques e afagos. A primeira vez a preparar juntos uma massa e beber uma taça de vinho entre uma lembrança e uma sadaude.
Sei lá, eu não posso dizer muito porque estou com o meu primeiro homem (lembrei-me do filme agora, vc deveria ver, é muito bom) e ele já teve várias e quase nunca me lembro disso, nem mesmo quando elas se fazem presentes. rs

bacio

Daniela disse...

O que dizer, Lu? Uma lindeza só esse post.

Renata Lins disse...

Gosto de gente com história. Com "marcas na alma". Não acho a menor graça em gente que não amou mais ninguém. Que não olha (tempo presente - ou seja, quando está comigo) pra mais ninguém. Gosto que estar comigo seja uma escolha: não porque é cego, não porque é inocente. Porque quer. Ora. Nem que seja só naquele dia. Só naquela hora. ;)

Dona Mila disse...

Esse breve pulinho aqui valeu mais que minha terapia da semana. Saudades de te ler sempre...
Beijos

Anônimo disse...

Aqui restou a saudade do que poderia ter sido. Mas não é bem uma *saudade*... É mais uma curiosidade sobre o que poderia ter sido, sobre o que eu imaginei que poderia ser. Não tenho saudade do que fui com ele (posto que fui muito submissa, um tanto imatura). Talvez pq tb não tenha havido o *amor* msm, mas sim um encontro de interesses, respeito e compromisso.

Bia Francisco

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