quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Walk Tall, Luciana

Eu queimei o dedo. A língua. As pontes. Ardi como madeira seca e agora o vento leva o que, de mim, ficou. Cinza. Sem tons.

Eu prefiro ir embora enquanto é riso. Enquanto é bom. Enquanto é gosto. Prefiro ir embora deixando os caminhos abertos para retornos embora saiba que eu nunca volto.

É mais difícil deixar quem não sabe direito ser feliz sozinho.

Eu tenho me entupido de comida ruim pra lidar com a falta de coisas boas acontecendo. Um caso clínico tão bom e você nem está mais por aqui, Freud.

Eu nem mesmo tenho do que sentir falta. Vasculho a casa e você não existe. Não está no café frio que esqueço na xícara grande ao lado do computador. Nem na panela vermelha que demorei tanto a comprar, adiando a alegria. Não está na sala enorme e vazia, no divã colorido, nos quadros que ainda vão ser. Não está em nenhum corredor, não tem marca do seu peso no sofá nem na cama que ocupo, desnecessariamente, de um lado só. Eu não vou sentir falta do domingo preguiçoso vendo futebol nem de chegar em casa e ouvir a música, baixinho, escorregando por debaixo da porta e me desejando boas vindas. Não terei nenhuma discussão para lamentar. Nenhum plano pra desmarcar. Olho e não vejo agora o que não havia antes. Eu nem mesmo tenho do que sentir falta.



Eu sei que a gente só pode fazer isso mesmo. Pelejar. Arriscar. Entregar.  Aceitar. Partir. Mudar a terminação verbal. Do “ar” essencial e intangível ao “ir” existencial e operativo. E se fica um vazio no corpo, arrumar um jeito de aproveitar a carga mais leve.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Deu Ruim

Luciana, você não se arrepende de nada? Eu me arrependo de todas as vezes que não chorei quando fui embora de algum lugar. Eu sei, mas esqueço, que nunca voltamos. 

Você quer fugir, amor. Eu também quero. Pra longe da eu que enfia o pé na jaca. Pra não saber que erro. Que derrapo. É assustador demais ser essa pessoa que também faz merda. E mais ainda não ser só ela. Sentir a responsabilidade. O arrependimento. A solidão. E perder a ilusão de que ser adulto é, enfim, fazer tudo certo. Ah, Karev.


Quem assiste Grey’s Anatomy sabe que deu ruim na vida do Karev. E ele tá lá, todo ensimesmada e entristecido porque parece que não vai pra frente. Ele tenta, peleja, faz o que pode pra ser a pessoa que ele quer ser e de repente parece que todo esforço foi vão e ele está no mesmo lugar de antes. Pior que antes.

A vontade que eu tenho é de ir lá dizer pra ele que não. Não é assim. Errar, enfiar o pé na jaca, trocar os pés pelas mãos, tudo isso é da vida, vai rolar. O que fazemos quando fazemos isso é o que nos define. Eu queria dizer isso pra ele porque eu queria que alguém dissesse isso pra mim. Porque eu queria dizer isso pra mim.

Grey’s Anatomy nunca me decepcionou na forma como trata temas ditos polêmicos. Aborto? Mulher quem decide. Separação? Não tem vilão. Transgêneros? Devem ser respeitados como qualquer pessoa cis. Idosos com tesão? Viabiliza o sexo. Jovens com tesão? Viabiliza o sexo. Foram muitos os assuntos não vou lembrar de tudo, e a abordagem, de todas que me lembro, certeira. Agora, espero, acertem também ao tratar do punitivismo cotidiano que nos faz demandar, como sociedade, prisão, reclusão, vingança e não inserção social, acompanhamento terapêutico, retribuição social.

Eu esperei muito pra ver o primeiro episódio da décima terceira temporada e, quando consegui, tudo que eu queria era apertar um botão e pular pra parte em que tudo fica bem. Não é preciso muita sensibilidade pra saber que continuo falando de mim.

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- Lealdade cega?
- Não é cega, ele a conquistou.
Porque você vê Grey's? Porque tem os diálogos da minha vida. Mais, tem os diálogos que eu escreveria, se soubesse escrever.




sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Pudores

Quando eu era menina/adolescente e ia sair de casa minha mãe sempre perguntava se eu estava usando peças íntimas apropriadas. Apropriadas pra quê? Pro caso de eu sofrer um acidente, chegar no hospital e os enfermeiros e médicos não se depararem com uma calcinha foló ou algo assim. Óbvio, né? Um dia desses a Fal escreveu sobre ir arrumadinha fazer recado na esquina, vai que se encontra o grande amor? Mais fácil ele lhe reconhecer “se você estiver de de camisa de florzinha e brinco bonito”. Só uma pessoa mutcho louca feito eu liga essas duas coisas, eu sei, e fica pensando se o amor da vida é um motorista distraído ou um enfermeiro atencioso. Brinks. Na verdade fiquei pensando que o amor é um acidente grave e inesperado para o qual devemos estar preparados e eu nunca estou. Estou sempre de calcinha de algodão furada.

Eu não costumo brigar. Não é porque sou legal. É que tenho muita dificuldade de voltar atrás.

Faz tanto tempo que estou indo embora que nem saberia ficar. Que não sei. Me desculpe - escrevo aqui, não digo lá e sei que é dar mais uns passos. 



Eu tinha desistido de ver The Affair mas a vida me deu uns solavancos tão intensos que voltei por motivos de: Pacey. Não me arrependi, especialmente porque na 2a temporada tem muito mais Pacey#AleluiaIrmãos. Gosto muito do personagem dele. Dá vontade de construir uma vida inteira junto e, olha, é bem raro eu sentir qualquer coisa vagamente parecida. É que ele tem uma coisa confortável e segura. Claro que é seguro pensar isso sobre alguém que não existe. Aproveito muito filmes, séries, livros para sentir coisas que não sinto na “vida real”. Por exemplo, todo mundo sabe o que acho de casamento, infidelidades, monogamias e eteceteras no mundo real. Mas estou aqui, com Maura Tierney como personagem preferida, exercitando todo meu TFP. 



Tem uma conversa entre amigas, eu penso em contar uma coisa minha, pra dar exemplo. Paro, recuo, desisto. Passa um status de conhecido com uma pergunta banal. Penso em responder, porque não? Paro, recuo, desisto. Dói um sentir que, bem sei, se escrevesse sobre amainava tempestades. Paro, recuo, desisto. Quando estou quase acreditando que sou uma pessoa, sei lá, discreta, recordo que posto aqui meus dicumê tudo, passeio de fim de semana, medo primordial, contas a pagar e gargalho – publiquei isso no FB e algumas pessoas comentaram relacionando a um clima tenso na rede social que acaba produzindo atitudes reservadas e menos interação. E é uma postura válida – e eu cultivo – mas nem era nisso que estava pensando. É que eu tenho pudores insuspeitos. 
Eu acredito na alegria. Ela é que não tem acreditado em mim.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Pé Ante Pé

Andam pela rua em um passo desigual. Param em frente a vitrines como se houvesse interesse, apenas pra tentar recomeçar em sintonia. Quase. Quem sabe é este. Quem sabe é ela. Uma vitrine confusa, manequins sem cabeça em roupas estampadas, demasiadas quinquilharias por todo lado. Loja de $1,99. Barato, banal. Ainda assim. Quase. Pode ser. Ela. Ele. Na loja ao lado, depois da insistência no alto-falante sobre preços e promoções, um curto silêncio e a música. Ele retesa o corpo, ela muda o peso do corpo de pé. Será que? A música não fala de amor. Alguém suspira, em alívios. Já não há espaço ou tempo para isso. Acertar o passo bastaria. Vais por ali? Pra onde vais tu? Por aqui – e porque falamos na segunda pessoa, pensa ela, sabendo a resposta. Vou contigo mais um pouco. Desde que não se fale de amor, pois claro. Andam devagar, como se pudessem descobrir o que é preciso antes de chegar lá. Um estende a mão, recolhe antes que o outro perceba, o outro tateia o vazio. Mais uma vitrine desinteressante, a parada que arrasta o encontro, a fumaça, o centro da cidade sempre cheio, os esbarrões bem vindos que forçam que seus corpos se aproximem.  Há tempos não tomo caldo de cana, diz ele, forçando na voz uma certo distanciamento analítico quando passam em frente a uma série de lanchonetes. Pena que não tens tempo hoje, ela diz, como quem espera ser desmentida, zombando internamente se si mesma e do insistente uso da segunda pessoa do singular. Até poderia, se já não tivéssemos passado… agora é um balé delicado. Negar como quem afirma, deixar espaços. Vamos voltar, ainda estamos perto, diz ela – primeira pessoa do plural. Quem sabe é ela. É ele. Um estende a mão, o outro aperta antes que seja recolhida, os passos desiguais no mesmo ritmo, a lanchonete apertada, o caldo de cana gelado, pastel com azeitona, a placa avisa: cuidado com o caroço, eles riem, alguma conversa, joelhos se tocam embaixo da mesa. Não há como saber. Não há um ele. Nem uma ela. Há, se e quando, nós.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Nem É

Bazunça. Era assim que o filho dizia. Cabe o termo. Pra cama, pra cozinha, pra bolsa. Pra vida.

Eu devia reler “A Convidada” da Beauvoir, mas tenho medo.

As pessoas erradas. Uma idéia de festa desperdiçada.

Às vezes não é tristeza. Às vezes não é gostoso. Às vezes não é preguiça. Às vezes não é maldade. Às vezes não é a hora. Às vezes não combina. Às vezes não machuca. Às vezes não alenta. Às vezes não dá certo. Às vezes não dá tempo. Às vezes não se esquece. Às vezes não se entende. Às vezes não é.



Eu nunca me imaginei regionalista mas tem dias que até pessoas muito legais da cintura pra baixo do Brasil me entendiam e/ou me exasperam de tal forma que canto a sério o repente.

De vez em quando, com algum espanto, me pego com pequenos rompantes de inveja e anseio por aquilo que já rejeitei. Não demora a passar, não sem antes um pequeno riso auto-indulgente e a certeza de que voltaria a dispensar se novamente me fosse oferecido. Mas, no pequeno intervalo, eu lembro que ainda sei doer.

Eu não sei fazer literatura mas tudo que escrevo é ficção.

Estou procurando um texto. Ou, mesmo, uma frase. Pelo menos uma. Que seja bonita e potente. Que diga um encanto. Que adormeça o dor. Que abra uma janela. Que seja espelho. Ou desfiladeiro. Que convide. Que acolha. Que possibilite. Que mareje o peito. Uma frase. Um texto. Uma entrelinha que seja. Que não chega.

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