sexta-feira, 26 de maio de 2017

Molotov 3

Apesar dos estudos sérios que poderiam servir para justificar porque a internação compulsória é ineficaz, eu nem entro neste mérito... O fim nunca pode justificar o meio. Internação compulsória é violência. É anular o Outro como sujeito. Ponto.

Privilégio é aquele conceito pelo qual você tem simpatia, podia até usar com mais frequência, mas tem medo de ser confundida com quem consegue transformá-lo ora num vazio absoluto, ora numa bobagem inominável.

Eu sou daquele grupo que acha o sistema penal uma bosta de forma absoluta e, no que se refere aos usos no Brasil, uma aberração. Mas tem situações que ficam além do que é possível de comentar. Uma mulher rouba uns ovos de páscoa e tem pena maior que os réus do Lava-Jato (pra ficar na bola da vez). Uma mãe. Ovos de Páscoa. E aí um juiz (cês viram o vídeo do Gregório Duvivier, né), um ministro do STJ diz que não dá pra usar o princípio da insignificância pra esse “crime”.  Diz que não dá pra dispensar um roubo desse. E manteve uma mãe de 4 filhos em regime fechado. Ovos de Páscoa. Uma mãe (e bato nesta tecla porque, né, somos aquela sociedade que acha que é sofrer no paraíso e tal). E estamos aí gritando que há muita impunidade e queremos prisões mais cheias. Pode bater em manifestante, mas não pode quebrar vidraça nem roubar ovos de páscoa. Bens materiais devem ser protegidos. O patrimônio de alguém vale mais que pessoas.

Vamos transformar o mundo, mas sem vandalismo, gritavam os passa-pano na frente da bastilha.




Uma amiga vai pra Lisboa. Dou uma xeretada em acomodações pra ela. Outra pra Espanha, fuço hotéis em algumas cidades de lá. Espio fim de semana em canoa quebrada. Outra vai pra Santiago, lá estou eu dando uma mão. Buenos Aires. Aproveito e olho preços em Florença (meu aniversário de 50 anos) e em algumas cidades no Peru (viagem das irmãs, daqui a una anos). Começam a aparecer propagandas de hotéis, pousadas, vôos, pacotes turísticos, para lugares específicos. Até que o algoritmo cansa e me manda: "Precisando de férias? O Airbnb tem mais de 3 milhões de acomodações em todo o mundo. Encontre a ideal para você" (e acrescenta mentalmente, aposto: sua indecisa).

Eu gosto muito de quem eu gosto, mas tem hora que eu penso que se eu não conhecesse algumas pessoas eu teria uma opinião melhor sobre mim.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Molotov 2

Nunca foi pra todo mundo.
Eu sei, você sabe.
Mas a luta é
a) pra ser pra todo mundo ou
b) pela igualdade, se não é pra alguns que seja pra ninguém?
#confoooosa

Internação compulsória. Chacina no Pará. Demolição de prédio com gente dentro. Exército na repressão. E a manifestação pela manutenção de direitos é que é violenta e deve ser censurada. Pois bem.



Alegria na vida é recomendar Handmaid´s Tale e Big Little Lies pra suas alunas e elas já estarem acompanhando.

Acho que quem gosta de ver as coisas arrumadas devia gostar também de arrumar. Quase dois anos em casa e o quarto dos livros ainda tem caixas por abrir.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Molotov



Gastei a foto antes do tempo. Hoje Brasília pegou fogo de verdade.

E sim, é pra protestar, queimar, quebrar. Revelar a insatisfação. E não, não é igual a reação da polícia. Não dá pra comparar vidros quebrados com ossos.

E dez pessoas foram mortas pela Polícia Militar no Pará. Quantos Eldorados ainda iremos chorar?

Forças Armadas na Esplanada do Ministério. E a certeza de que os que confrontam, resistem, lutam, protestam, apanham, o fazem por todos nós.

Pessoas indignadas com a “quebradeira” de coisas em Brasília enquanto o Prefeito de SP manda derrubar um prédio com pessoas dentro. 

Não adianta chamar de confronto. Não adianta tentar culpar os "vândalos". Nós não aguentamos mais o descaramento de quem narra uma realidade inventada para suprir necessidade dos poderosos.

Há vidas que valem menos que vitrines, neste Brasil brasileiro. 

****************

Dizem que todo professor é narcisista. Que bobagem. Não ligo pra plateia. Não ligo de ser homenageada ou não nas colações. Não contabilizo o número de inscritos nas eletivas. Etc. Etc.Etc. Até que chegam os pedidos de orientação. Não é só não conseguir dizer não. É que eu me derreto.

Viver em condomínio é ter que aguentar reunião que as pessoas não sabem conduzir sobre coisas tão absurdas como contratar ou não vigilância armada. Dessa vez foi não. Não sei por quanto tempo será. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Big Little Lies - Monstros, Sonhos, Tesouros Escondidos

Se você se importa com spoiler, não leia o texto, 
é provável que tenha um bocado.


Eu não sei o que cada um vê quando assiste Big Little Lies. É um pouco como espiar o mar, acho. Um enorme e navegável clichê. Uma beleza estonteante. "Quando um mar tem mais segredos é quando é calmaria...". Na superfície é um compacto Desperate Housewives. Donas de casa de classe média (aquela classe média idealizada norte-americana, muito dinheiro, muito tempo livre, muitas neuroses) em conflito. Para mim é, principalmente, uma série sobre alguém que se importa e como não basta - e isto me tocou muito. Não ser suficiente, a síntese do que é humano.

A série é muito bem dirigida, consegue equilibrar coisas como fofoca, rivalidade, bullyng, estupro, violência doméstica, relacionamento extra-conjugal, crise de adolescente, maternidade e mais uma porção de drama sem escorregar na saída fácil da emoção comprometida. É esteticamente empolgante, luz da bonita e idealizada cidade, sombras nas vidas íntimas. Nenhuma vida é perfeita, poderia ser um resumo precipitado. Porque sim, é isso que a trama nos diz, mas não fica na constatação. Ela nos faz perguntar os porquês. Cada episódio é uma espécie de abismo que nos convida à vertigem e depois nos sacode de novo no material da vida.




Inveja, mesquinharia, desejo, carinho, medo, ressentimento, culpa, mágoa, amizade, cumplicidade, raiva, um mosaico do humano em entrelinhas consistentes. Segredos, daqueles que escondemos tanto de nós mesmos como dos vizinhos, cujo olhar e aprovação praticamente nos define. Angústia, como se o viver fosse em queda livre.


Cada personagem carrega uma dor ou duas. Temos a mãe mais jovem, traumatizada, que cria o filho sozinha e é sempre meio injustiçada. A vítima de violência doméstica, psicológica e física. A mãe executiva, cheia de culpa e arrogância. A namastê sedutora vida saudável que não se enturmou muito bem. A “abelha-rainha”, mãe em tempo integral, que é alvo de uma admiração invejosa e que sofre com o crescimento das filhas. Um enorme dramalhão? Seria, não fosse a delicadeza, a ambiguidade, a sutileza com que os temas e vidas se desenvolvem, se enroscam, se contradizem e se sustentam.

Eu gosto da Madeline (sim, no presente, é daquelas personagens que levo comigo pós-evento, daquelas de quem sinto saudade, em quem penso quando vou decidir alguma coisa, etc). É uma série de frestas e é nela que isto mais se evidencia. Madeline parece ser o modelo e é onde ele implode. Ela é intensa. Tem valores, se compromete com eles, ignorando saídas fáceis. Se mete na vida alheia e tenta torná-las melhor. Suas próprias rachaduras e falhas são escamoteadas mas estão ali, prontas para se tornar ebulição. Ela se importa, eu disse logo no começo do texto. Preocupa-se com a formação que está oferecendo às filhas – e vê o relacionamento da filha com a madrasta como um sinal de que ela não basta. Preocupa-se se não é suficiente o relacionamento que tem com o marido – e compara a própria vida sexual com a vida sexual alheia e acha que ela não basta. Preocupa-se com os valores da comunidade e com uma petição tentando proibir uma peça – e acha que se não conseguir convencer o prefeito a apoiar a produção é porque ela não fez o bastante, não basta. Vê a injustiça no colégio das crianças e toma partido. Nada menos do que conseguir um tratamento justo para todos parece ser o bastante para ela.  



Madeline fica ali, olhando o mar e tomando café. O que você está olhando? Nada. A potência do mar. Monstros? Sonhos? Tesouros esquecidos? A impermanência, ela parece responder. Ela sente a falta. Do quê? Não se pode saber. Porque não há palavra que diga o real da ausência.

O que mais gosto em Madeline é que ela se vincula, faz laços, parece ver mesmo as outras pessoas. Mas ela erra. E muito. Mesmo procurando ver o que há pra ser visto ela não vê a orientação sexual do amigo barman, a violência sofrida pela amiga, a carência da filha, a insatisfação do marido. Porque a gente não basta, nunca.


E quando as coisas explodem na sua cara ela não evita. Mergulha. Não ignore a ferida, jogue álcool nela. Ela se inquieta por não ser o bastante. E se surpreende e se machuca ao perceber que não há o que baste para ela, também. Viver não é suficiente, mas a outra opção é pior.


Ela não explica nem se desculpa. Ela acolhe sua falha como uma maneira de sobreviver. Enquanto a manutenção da imagem de perfeição isola cada mulher em seu inferno próprio, Madeline busca o contato. Somos vulneráveis.


Adoro quando ela chora. A grande ficha caindo. Que não tem metade da laranja. Que a paixão inconsequente também não ia completá-la. Nada completa. Ninguém completa. A gente faz, do possível, felicidade. 





Madeline e a série parecem encontrar um desfecho maduro. Do tipo de maturidade que anseio. Que reconhece a dor, mas valoriza a beleza. A cena final, o silêncio, a tranquilidade impermanente, a abertura para a incerteza, tudo isso me comove. Não sabemos as respostas. Não. Não existem as respostas. Mesmo o desenlace que liberta, pesa. Mas seguimos. De vez em quando, entre amigos. Entre amores. E à beira-mar.

PS. Ia escrever um pequeno texto, virou isso aí que vocês leram (ou não). E ainda não cheguei nem perto de tudo que quero falar, tem o lance da narrativa da Jane, a memória da violência, que quero abordar: tem o lance do mar como personagem, que também quero mencionar; tem o lance do bullyng e a personagem da leura dern, affe, é muita coisa pra tratar.

domingo, 21 de maio de 2017

Milhões



Não com muita frequência, mas um número razoável de vezes, eu já pensei: e se eu ganhasse na mega-sena/euromilhões? Era o caminho único, achava eu, para ter uma quantidade absurda de dinheiro. Hoje eu já sei que, em algum lugar, pode ter uma conta com 150 milhões (de reais? de dólares?) no nome de outra pessoa, mas destinado a mim.

Caso exista, favor passar a senha.

Enfim, eu fazia planos, quando pensava nos milhões. Muita gente já os ouviu em viradas de noite com cerveja e conversa fiada. Mas enquanto a senha não chega, vou jogar conversa fora aqui também. Eu largaria o emprego pelo tempo que durasse o dinheiro. Tem gente que fala que ainda trabalharia, mesmo rica e tal. Eu, não. Por mais que goste do que eu faço, gosto mais de não fazer nada ou fazer só o que quero, quando quero e tal. Então, nada de trabalho pra mim. Em uma certa época, pensei em uma fundação, ong, qualquer coisa do gênero. Mas eu seria figura decorativa, pessoas engajadas e competentes tocariam o barco. Eu tiraria uma parte da grana pra viver um tempo como na Babylon do Zeca Baleiro e o resto seria pra mudar o mundo.

Depois, menos altruísta, pensei em divulgar pros amigos: vamos gastar até acabar? Viajar com petit comite – ou nem tão petit assim, dependendo de quantos amigos topassem a aventura. Ir pra todo lado, um avião só pra gente, comida farta, risada solta e logo tanto ficaria nada e voltaríamos todos, meio bêbados do encanto, duvidando da realidade do vivido, para o banal, com suspiros enigmáticos de quando em vez.

Sou de criatividade limitada: comida, bebida, passagens, entretenimento. Duas malas de mão: um com roupas miúdas, outras com roupas grossas.

Eu não compraria coisas. Digo, bens permanentes*. Eu gosto da volatilidade. Uma pessoa de âncoras, não de raízes, como escrevi um dia. Quartos de hotéis. Uma villa alugada no interior da Itália. Um apartamento apertadinho no Quartier Latin. Uma casa antiga e espaçosa em Montevidéu. Uma cabana no Vietnã. Um apartamento moderno em Sidney. Uma ilha no Caribe. Um sei lá o quê em Tokyo.

Compraria também um monte de canecas e ímãs de geladeira. Por favor, não perguntem pra colocar onde

Beberia sangrias. Espumantes indecentes. Vinhos, cervejas e drinks de nomes exóticos e sabores esquisitos. Comeria no restaurante do italiano do parmesão e no Bitoque, minha cozinha preferida em Lisboa. Queijos, queijos, queijos. Até uma lasquinha daquele de leite de burra. Visitaria museus com guias preparados e exclusivos. Veria filmes, filmes e filmes, abriria cinemas em sessões especiais pra rever tudo do John Wayne. Sentaria em cafés esquecida do tempo. Acompanharia uma turnê da Bethania. Compraria temporadas em teatros, a temporada de ópera, os concertos, o balé. Montaria um evento literário só pra chamar Verissimo e Chico Buarque e ter uma mesa redonda mais parecida com uma mesa de bar, papo solto, talvez fizesse mesmo o evento em um barOPS. 

Ok, talvez comprasse livros. Mas nem precisaria ser primeiras edições de capa dura e com dedicatórias escritas a punho pelos autores para seus amantes ou rivais preferidos. Pode ser edição de bolso vendida em aeroporto mesmo. 

Eu cozinharia. Iria até onde o ingrediente está. E cozinharia. Em fogões modernos, em fogão a lenha, em cozinhas frescas com ilhas gigantes e coifas, em cozinhas espaçosas com cheiro de alho e cebola, panelas de barro, mesas de madeira. Visitaria amigos. Voltaria a lugares. Aquela barraca querida em Canoa, aquele Cristo esquisito perto de Taranto, os smurfs na estátua dos burgueses, o Pedro jogador em Pedra Branca.

Compararia azuis. Dos céus. Do mar. Viajaria a favor do sol, procurando os dias longos. E, depois, ao contrário, até uma noite encontrar a outra.


*Ok, talvez decidisse comprar uma casinha - numa cidade média, com transporte público eficiente, feiras na esquina, teatro e calçadas baixas - para quando chegar a velhice, se nela eu chegar.

** eu sei lá se eu faria isso mesmo, talvez desse tudo pro sindicato dos trabalhadores rurais de Ipaporanga. Mas é divertido pensar bobice, né.

*** e mecenas? sempre achei legal. quem sabe uma mecenas modernosa, apoiando equipes olímpicas e escritores talentosos.

**** mas a verdade é que ninguém vai abrir uma conta milionária pra mim e eu nem jogo na megasena. O que tenho, no momento, é um óculos defasado, uma pálpebra inflamada e a carência do plano de saúde que ainda não me permite "ver" um oftamologista.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...