quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Estrada Real

Andei conversando com algumas pessoas e me parece que meu desagrado com GoT (que não é avassalador, é mais como uma crônica unha encravada) vem do fato de que, parece-me, nos livros o Martin está contando um pedacinho da História de algo maior, tipo quando a gente encontra a civilização persa nos livros na escola. Nesta perspectiva as trajetórias individuais são miudinhas. Seja lord, protetor do norte, rei ou até dragão, tudo é formiguinha ante o Tempo. A Casa Stark sabe, o Ned não vacila: o inverno sempre vai chegar. Mesmo que demore 8.000 anos. Ao mesmo tempo a responsabilidade individual é imensa, o que se faz da vida é o que ela faz de cada um. Como alguém será lembrado? Como será esquecido? E, principalmente, como será distorcido, azor ahai, príncipe prometido, último herói, tudo que já foi e que almejamos vir a ser? 

Já a série fez sua escolha ao trocar o Crônicas de Gelo e Fogo – que me remetem ora a fragmentos narrativos, ora a menestréis cantando/contando mitos e reminiscências em amplos e entediados salões... e como uma coisa puxa a outra lembrei da Cassandra de Marion Z. Bradley, irritada com o menestrel que deturpou a queda de Tróia, mas divago – que trocou o Crônicas pelo Jogo dos Tronos, um título mais circunstancial, que projeta luz acintosamente nos lords, nas intrigas palacianas, na história com h minúsculo, focada em trajetórias individuais. Na disputa pelo poder, para responder quem vai vencer, quem casa com quem, quem senta no trono, cada personagem é colocado sob o microscópio. Enquanto nos livros subentende-se um antes e implica um depois, a série acena com uma narrativa de fundação e com fim amarradinho. Ou seja: quando se joga o jogo dos tronos você vence ou morre. Quando é da vida, do tempo e da História que se trata, você morre ou morre. 

Enfim e apesar de, um episódio por dia, uns capítulos também.



Uma coisa sobre mim é que sou péssima avaliando episódios de seriados. Eu gosto mais daqueles em que os meus personagens preferidos aparecem mais. Simples. O episódio 2 da primeira temporada, assim me parece bastante bom, já que tem o Tyrion dando uns tapas do Joffrey e tem Stark a rodo. Eu nunca tinha pensado se o cara que faz o Jon é ou não um bom ator. Pra mim ele simplesmente fazia o Jon. Mas revendo tudo, claro que a gente passa a pensar irrelevâncias então lá vai: como ele cresceu. Neste episódio ele ainda era meio café com leite, a Catelyn o engole em cena. Ela, imensa e ele, tadinho, cara de muito pouco, quase nada. Hoje, mesmo fazendo papel de bobo e tendo idéias toscas, Jon é encenado com bastante estofo, acho. Ainda sobre ele, a série dá um bizu grande sobre as origens, né, no diálogo da cena de despedida antes de seguir pra Muralha, Ned diz: você é um Stark, pode não ter meu nome mas tem meu sangue.

Boas cenas: diálogos Tyrion e Jon, Robert e Ned, a chegada/visão na/da muralha, a tentativa de assassinato do Bran. Cena tosca: Catelyn achando um cabelo loiro pra deduzir que os problemas vinham da família Lannister. Cena ué: a Cersei fala de um tal filho de cabelos pretos, que não existe nos livros e, consequentemente contraria a profecia, eu fiquei imaginando que iam inserir essa lembrança pra depois contar que ela o tinha matado (sabe como é). Mas não, essa história simplesmente desapareceu. Cena duplo tuiste carpado: uma hora Daeneryzzzz tá chorando, odiando o Drogo (e como os drothaki são subestimados, apresentando só o lance chocante dos costumes e não apresentando sua cultura e tudo) e depois tá querendo saber como fazê-lo feliz. Ok, facilita pra ela também mas ficou meio vago.

Chorei litros com a cena que termina com a condenação de Lady à morte. E, sim, Sansa foi fraca e titubeante na hora de contar a verdade, mas o fato da Arya ser impetuosa e agredi-la foi decisivo pro desenlace. Eu sei, eu sei, ela era uma criança. Eu sei, eu sei, agora ela é só uma adolescente. Mas que falta faz uma educação em Dowtton Abbey. Não demonstre seus sentimentos em público, menina, diria a querida condessa viúva.

Aliás, já que o episódio termina com o Bran acordando (infelizmente sem o maravilhoso e assustador sonho) será que algum dia teremos confirmado quem, exatamente, pagou o cara pra terminar de matar o Bran ou vai ficar esquecido?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Winter is Coming


Eu sei que está todo mundo no fim da série e tal, mas eu sou quem eu sou e sinto saudades do Ned Stark. Ou seja, fui paquerar os começos. E porque eu sinto saudades do Ned? Porque ele empunha pessoalmente a espada quando é preciso punir alguém. Porque ele vai ao bosque sagrado, depois que executa alguém, para refletir - mas aproveita pra limpar e afiar a espada. Porque ele guarda segredos que doem. Porque ele tem um senso de humor discreto. Porque ele destrói uma torre para dar sepulturas decentes ao companheiros de luta e, também, aos inimigos. Porque ele condenou a morte das crianças Targaryen. Porque ele sabe que o inverno vai chegar. 

E a primeira coisa que me chamou a atenção, embora eu ame o Boromir, é como a série tirou a gentileza do personagem (não culpo o ator, lembro bem do que ele é capaz se a direção permite). Ned não é só admirado por ser reto e justo. Ele é amado pelos filhos e servos por ser bom e até afetuoso. A série nem mesmo mostra a alegria que ele sente com a notícia que vai reencontrar seu amigo Robert. Na mesma linha de personagens que perdem pontos na apresentação achei injusto que, pra dar uma garibada desde o começo no personagem do Jon, tenham esmaecido a participação do Robb na descoberta da loba gigante, seus filhotes e tal.

Acho revelador como a Casa Stark ganhou meu coração desde o primeiro momento. Gosto dos demais POVs, gosto demais da escrita do Martin, mas sempre leio com mais atenção e afeto os que vem de lá do Norte. Idem na série, quando a ação se passa em outra locação parece mais sem graça um tiquinho. De resto, sobre o primeiro episódio, amei a primeira aparição do Tyrion, Tio Benjen e de Jorah, claro #Gatos. O primeiro capítulo de Daenerys, no livro, é envolvente. Eu senti o desenraizamento dela e a solidão que a faz amar e temer o irmão. Por outro lado, a primeira aparição de Daeneryzz na série é olhando pro tempo com cara de nada #prenúncio. Isso não me impede de achar que a cena do casamento teve uma vibe erradíssima. 

O primeiro episódio da série é bonito. Aliás essa é uma característica que mesmo nos altos e baixos narrativos não se perde. A presença forte da Muralha. As cores no bosque de Winterfell. A câmera acompanhando os malabarismos de Bran. Os figurinos mais leves e coloridos do sul e a sobriedade no norte. E a abertura? Hipnótica, tudo orna, a música, a historinha de westeros pré-narrativa da série. A pouca profundidade no desenvolvimento de alguns personagens e tramas ainda não apareceram. É envolvente. 

Revisitado o primeiro episódio (e os primeiros capítulos do livro) fiquei com a frase na cabeça: "não te amaria tanto, querida, se não amasse muito mais a honra" (querida Catelyn, querida família, querida propriedade, querida terra). Sigo na releitura, tão bom reencontrar personagens e seus desvios.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

De onde. Pra onde.

O mundo não é o que devia ser. Mas coisas que nos aproximam ou se aproximam (de forma incompleta, que seja) de aspectos deste mundo não podem, não devem ser mencionados, lembrados, que dirá comemorados, porque ajuda a manter (????) o mundo como ele não deve ser. Essa é a lógica, mas dizer que eu entendo, ah, não entendo não.

Tem muita coisa que eu tenho deixado de falar. Essa estava sendo uma destas. Mas só uma palhinha: o Lula teve milhões de votos de pessoas distintas. Depois ele teve mais milhões de outras e mesmas pessoas. Depois ele passou milhões de vontades de votar nele pra quem ele apontou como sucessora. E agora ele tem milhões de intenção de votos de um monte de gente. Será demais, demasiado esforço, imaginar que esses milhões de pessoas não são um grupo homogêneo e que grande parte dele, inclusive, não é de militância acrítica? Será muito tentar dialogar e entender os porquês além de chamar de devoto, zombar e menosprezar com virulência? A não ser, claro, que o importante não seja efetivamente a transformação do real, mas a sensação de ser moralmente melhor e mais sabido.

(aí saiu uma matéria: No enterro de Marco Aurélio, turma da manutenção e limpeza pede foto com Lula e Dilma. Se a gente se recusa a ver, se a gente não tenta entender, se não procura ouvir, dialogar, não vamos sair do buraco)

Tem dia que eu sinto muita falta do amor que você me dava.


Eu gosto muito das vidas que eu poderia ter tido. Não faz diferença que eu tenha escolhido não vivê-las. Talvez seja justamente por isso que gosto tanto delas.

Queria muito ver o mundial de paratletismo, mas me conformo assistindo o grand prix de vôlei. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ponto, parágrafo. (2)

A palavra que eu estava buscando ontem era vulnerável.

O bom da vida não ser demasiado diversa é que continua servindo.



Primeiro a carteira não chega. Depois você procrastina um pouco. Aí finalmente vai ao médico, espera aquelas horas de sempre, tem a consulta, recebe a receita. Aí você sua pra conseguir o telefone certo das farmácias (até no site delas mesmas está errado). Depois de fazer várias ligações descobre que a tal pomada não é vendida em lugar nenhum da cidade.


Uma coisa que oscila entre me irritar e me fazer rir: receita rápida que envolve “1 litro de caldo de legumes”. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Ponto, parágrafo.

A sensação é de sufocamento sempre que tenho que lidar com a burocracia - e não, não acho que burocracia é horrível e precisa ser exterminada, acho que ela tem uns méritos relevantes, mas todas as vezes acabo me sentindo incompetente, meio limitada e um tanto lesada.



Da série despesas inesperadas que deviam ser esperadas: comprando óculos.

A vida seguiu, estes dias: terminei um livro empancado, tenho mantido a pia limpa (melhor dizendo, tenho limpado todas as manhãs), dei aula, fui a reuniões, me entretive no fogão: panquequinha, chapéu de couro, costelinha de porco, tapioca, feijão.

Não sei se futebol é o ópio do povo, mas certamente me mantem quentinha, segura e confortada.

Status: pedro pedreiro.

E quando dói, respiro.

Em outro dia, uma amiga falou dos livros na mesma outra língua: o desconforto de pegar, por engano, um livro traduzido em português de Portugal. E eu fiquei pensando como fui me misturando nas linhas e palavras e letras e sentidos e os autores portugueses, moçambicanos, angolanos, que eu nem suspeitava, se tornaram tão meus como meu Machado. E lembrei daquele que aprendi a amar – e a quem esta palavras por vezes assombra – que já antes me dizia que eram, dele, todos, que não abria mão de nenhum rosa ou Drummond, pois não era de geografias que se tratava.

100 dias sem ela. 

Ninguém perguntou, ninguém quer saber, mas eu conto mesmo assim: sou melhor professora do que sei menos.

Sobre a não sei qual temporada de GoT que estreou esta semana: eu gosto de Sansa desde a primeira temporada e Daeneryzzzz me dá sono desde a primeira cena (antes, pelo menos, eu me animava que quando ela aparecia aumentava a chance de ver o Jorah, agora nem isso). 

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