terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Mangueira, Oscar e o Som do Coração


Mangueira, um amor. Que desfile maravilhoso. Teve um buraco que eu ignorei solenemente. Acho que os jurados deviam fazer o mesmo. Ou considerar que foi o espaço a ser preenchido pela emoção. Que foi muita. Carros maravilhosos, alas maravilhosas, passistas maravilhosos. E o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira com os santinhos de proteção me comovendo. O surdo fazendo eco no meu peito. A bateria de São Francisco. Os oratórios. Enredo que fala da gente e pra gente. Os analistas não estão colocando como favorita pro título. Quem se importa? Volta no sábado pra gente ter uma transmissão melhor, tudo que anseio.

Um desejo: desfile da Mangueira começasse hoje e só acabasse na Páscoa.

Eu vejo a gente indo embora e, surpresa, nomeio esse aperto no peito, a garganta travada, a falta de fôlego, o embrulho no estômago: tristeza.

Não é você, eu podia dizer. E seria verdade. Também não sou eu – e continuo sincera. É que não podemos viver naquela fotografia.

Não consegui achar engraçada a confusão da entrega do Oscar de Melhor Filme. Foi tudo tão constrangedor. A situação de Warren e Faye, dois dos grandes, enormes, e as consequentes piadas depreciativas sobre a idade, como se a culpa fosse deles. Fiquei comovida com a esquipe de La la land que precisou lidar com a frustração em cima do palco, na frente das câmeras. Foram elegantes, atropelaram a frustração e reconheceram a derrota com estilo e vigor. E, principalmente, fiquei triste pela equipe de Moonlight que tiveram o brilho da vitória meio empanado pela enfiada de pé na jaca da equipe de produção do evento.

Acho que os Oscars foram, de maneira geral, muito bem distribuídos. La la land, apesar das muitas indicações, não atropelou. E isso, acho, foi bom. Li como sinal do equilíbrio da safra. Eram bons os filmes. Bem bons. Pra destoar, os Oscars de melhor atriz e ator. Quanto ao prêmio de melhor atriz, era pra Isabelle vencer, ela foi gigante em um papel maravilhoso. Mas, vamos reconhecer como funciona a indústria: uma grande atuação de uma atriz “velha” (ou seja, diferente de Cotillard, não é alguém que vai se mudar pra Hollywood) em um filme falado em francês. Torci, mas sabia que era difícil. E o Oscar fica na mão da Emma que fez um bom trabalho e tem uma cena de audição excepcional. Quanto ao Oscar de melhor ator, nenhuma contemporização possível. O “cara de nada” ganhar de qualquer um dos outros já é absurdo, mas vencer a atuação impecável e visceral do Denzel, ah, vá.

Dos indicados a Melhor Filme só posso dizer: que ano bom. Pra saber de que argila sou feita: gostei de todos, uns mais do que os outros. Mas foi em La la land que meu coração ficou. Quase desidratei. Chorei de amor, de tristeza, de alegria, de deslumbramento. O cinema, minha gente, o cinema, que coisa maravilhosa é o cinema.

Uma esperança: um dia um enredo da Mangueira sobre musicais. Os da Broadway, os clássicos do cinema, os filmes brasileiros. Ia ser uma maravilha. 

Revendo cenas de La la land entendo porque me tocou tanto. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

Já faz um tempo que tento escrever sobre La la land mas não acontece. Entre eu e ele há pouco para dizer e muito para sentir. Gosto, gosto muito, do cínico romantismo presente nas entrelinhas (entrecenas?) do filme. Gosto do reconhecimento da impossibilidade. E gosto da doce e temporária idéia de que talvez, se, quem sabe. E o doce/amargo de seguir vivendo. No depois. 

O vencedor do Oscar foi Moonlight, um filme tão bonito e intimista que às vezes me peguei com vergonha de estar assistindo, como aquele embaraço de quando você entra de uma vez num quarto e a pessoa está trocando de roupa ou quando a gente escuta sem querer uma confidência entre terceiros. Como se eu estivesse invadindo a intimidade de alguém. Uma experiência inquietante e, talvez por isso, tão especial.

Quando dói eu lembro: ano que vem tem desfile da Mangueira. As pessoas continuam fazendo filme. Há belezas. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vísceras

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No Circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, vendo as pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade. Ou as horas passadas nos bancos das praças, especialmente a do Ferreira, o olho cumprido se esticando sobre as gentes andantes. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. A curiosidade, eu li, afasta e distancia, colocando o observador a parte do que observa. Not me. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, ecoando no meu peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. É saudade o que eu sinto ou um arremedo improvisado sobre a compreensão do que se deve sentir em ausências? Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem ainda mais sentido. Viver é esse desfile de vidas que não sabemos toda, os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido, mas a lógica é a mesma. Alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. O cigarro esquecido, se apagou. Peço a conta, café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de ar atarantado, sorriso largo e tristes olhos escuros. Meu rosto na vitrine. Vísceras.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Inverno

Eu sei que o clima influencia o humor. Mas será que impregna? Mesmo quando a gente não está lá, o ritmo das estações podem amofinar os afetos? Na dúvida, vou procurar minha amiga, fogueira em forma de riso. Esquentar as mãos, assar marshmallows metafóricos e ver se a geleira no peito se desfaz em suor.

Eu só queria lembrar o riso. Queria desejar mais uma noite. Queria fazer planos e vê-los fazer brilhar nos seus olhos. Queria ser em permanências. Ser um ainda. Ser dos que ficam. Dos que sabem deixar as raízes se espalharem, vigorosas, na terra fecunda e humífera. Ser dos que sabem os percursos subterrâneos do pra sempre. Ou nem tanto, só mais um pouco. O suficiente. O bastante. Dizer sim. Queria ser boa. Ser boa pra você. Acreditar que é possível ser bom pra alguém. Acreditar em qualquer coisa pessoal e íntima. Ignorar o relógio, o calendário, os mapas e aquele grilo que fala ao meu ouvido a certeza do adeus. 

O problema é a beleza da Antartida. Imensidões brancas na alma, o vermelho de um céu que não se apaga e o silêncio tão absoluto que se faz narrativa. A beleza - ou será o reflexo do sol no branco das geleiras?- me cega. Não há primavera pra esse território que batizei amor.





quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempo e Espaço

Sei que privilégio é uma palavra controversa, mas é um privilégio, ou, vá lá, uma vantagem, ter história. No nível subjetivo, claro, saber de onde se vem ajuda a dar aquela orientada no pra onde se vai ou pelo menos porquê esses caminhos se apresentam. Mas eu estava pensando em uma coisa mais material e ordinária, como ter móveis usados para comprar. Você que mora no Rio de Janeiro ou Salvador, alegre-se por ter passado, história materializada naquela cristaleira que precisa de um novo vidro e verniz, nas cadeiras charmosas de palhinha, nas mesinhas de base de ferro, vasos e pequenos ornamentos que se amontoam em antiquários ou lojas comuns de compra e venda de usados e que pedem pra ir pra sua casa. Eu vivo em uma cidade nova. Eu cresci em uma cidade de espírito novo. O que é velho é ultrapassado e dispensado (no segundo caso) ou simplesmente inexistente, na cidade atual. A gente só encontra acrílico e mdf e coisas assim. Móveis descartáveis ou peças assinadas caríssimas. Nas lojas de usados você acha apenas móveis de escritório, estantes de ferro e afins. Não tem nem antiquário em Fortaleza, Luciana? Tem, onde uma peça (telefone) da década de 50 é considerada “uau que velha”. Aqui o adjetivo “novo”, parece-me, tem o poder e função de trator. Tantas casas demolidas para novos prédios, fachadas icônicas ignoradas e trocadas por vidro espelhado e aço. 

Parecia normal me sentir desenraizada e solta por aqui, afinal cresci num outro ali - que devia funcionar como a memória idealizada de casa/lar. Mas fui bem pra lá do aqui e logo sabia me virar. Conforto. Voltei e mesmo juntando todos os anos passados ainda me sinto estrangeira, não conheço nada, não sei onde encontrar nada, vou aos mesmos lugares pelos mesmos caminhos, distraída e sem ânimo de aprender. como se fosse desnecessário, um pouso rápido e não o lugar onde a âncora ficará uns 30 anos mais (se viva estiver).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Bóias 7

O que é melhor que queijo? Muito mais queijo, acho. E vinho.

Eu só sobrevivo se ignorar as demandas. Porque se vou atender, quero dar tudo. Tudo. E desapareço enquanto te atendo. Desculpa, casa, se eu voltar a te ignorar, é sobrevivência.

O dvd Abraçar e Agradecer e parece que todas as comportas se abrem e a água salgada, que estagnava no peito tornando tudo inóspito e infértil, jorra... catarata de desassossego.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho.

Tenho vontade de te procurar, amiga. E medo. De não saber dizer. De não conseguir explicar. De repetir clichês. De não ser entendida e me sentir perdendo a ilusão de que você poderia saber, ouvir, compreender. Aí calo e me escondo. Caverna. 

Existem coisas que se adivinha antes de saber. O dengo, o fluido, aparência tranquila e grutas profundas com fortes correntes. Dá uma vontade enorme de acolher e me sentir em casa. Se eu não soubesse que não existe casa possível.

Ainda assim, amarelo e azul. Ainda assim, molinha. Ainda assim, chamego. Ainda assim, gratidão e reconhecimento. Ainda assim, amor.



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