domingo, 23 de abril de 2017

Saco Vazio

Eu nunca fui uma pessoa de planos. Não me lembro de alimentar projetos, expectativas nem sonhos a não ser um distante namorar o Éder quando tinha por volta de dez anos de idade. Carreira, família, bens, militâncias, metas. Nadinha. Nunquinha. Não tinha propósitos além do batido e subestimado mudar o mundo – e mesmo assim daquele meu jeito, no moído, pé ante dito, etc. Passei por casamentos, graduações, mestrados, concursos, trabalhos, apensa estando. Até que.

Por mais ou menos cinco anos, foi ela. Ou ele, mais precisamente. Que começou como doutorado, mas por volta de seis meses se tornou mento e é assim que vai ser lembrado por mim. Determinou espaços, tempos, ritmos, amores. Fez com que eu ansiasse sem saber direito a quê. Fez-me angustiada, cansada, animada, organizada, viajada. Solitária. Repleta. Ocupou coração e mente.

E agora, oco. Espicho palavras e os vazios internos repetem a sílaba final, como um mal ajambrado eco de desenho animado. Saco vazio não se põe em pé, diz o ditado e confirmo eu.

A bagunça de uma sala semidesfeita. A preguiça de cozinhar. A completa incompetência para voltar ao que precisa ser feito. Tenho aulas para dar e para repor e tenho vergonha de não estar à altura delas. Tenho orientações. Artigos e projetos para tocar. Amigos para contactar. Nada anda. Nem mesmo arrumo as fotos nos álbuns virtuais ou posto com regularidade no FB.

Minha esperança são os romancespoliciais (também por isso). Não sei quantos serão necessários para oferecer alguma estrutura ao meu cambaleante viver, mas os tenho devorado com voracidade.

Reaprender a apenas estar. 


Tem o jogo do Flamengo. As eleições francesas. A feijoada de Ogum. O dia das mães. A visita do amigo. O caso do Rafael Braga. Os papéis pra viabilizar a validação do diploma. A defesa da amiga. A disputa pelos departamentos. A greve geral.  Eu pego, eu pego, nem que seja no tranco.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Malas e Bagagens

Nunca fui muito desse lance de gestalts. Ciclos. Começos, fins, recomeços. Sou meio da bagunça. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

E, entretanto. Esta, esta morreu. Ou virou purpurina, versão que prefiro. Acolher o nunca mais. Que eu vislumbrava, mencionei, mas só terminei de sentir agora. A vida é em relação. E foram se dispersando os ganchos. Brasília, Vitória, Goiânia, Fortaleza. O último ganchinho, que me acolheu, deu casa, comida e afeto também já se prepara pra zarpar. Fica quem já era, cada vez mais diferente. Cada vez mais daqui, enquanto eu cada vez menos de qualquer lugar que não esta estranheza de insistir em ser. Daí ontem vi Grey's 13X8, Meredith e Richard recordando o que foi feito das cinzas da mãe dela. Jogo-te hoje na pia de um bar no Terreiro do Paço, Luciana. Diretinho ao Tejo.


 Vai na mala:
5 garrafas pequenas de azeite
1 kg de sal
2 pacotes de bolacha belga
1 tese
8 garrafas de vinho
1 varinha do Harry Porter
1 biscoito de gengibre
Roupa amarfanhada
1 casaco que nunca saiu do saco a vácuo
1 casaco vermelho escândalo que foi como empréstimo e voltou como propriedade
Canecas (não contei)
3 sabonetes da Vida Portuguesa
1 barra de chocolate negro com menta comprado pra ser consumido aqui e devidamente esquecido
2 HDs (que sei onde estão) e 4 pendrives que devem estar em algum lugar
1 notebook cada dia mais pesado
1 perfume comprado por encomenda
1 pacote de coisinhas de fazer sshhhrrrr na banheira
2 potinhos de tempero
Cogumelos (sim, me julguem)
Queijos (sim, me julguem 2)
5 postais
5 ímans
Uns paninhos de cozinha


Deixando pra trás:
1 bloco pesado, anteriormente carregado nas costas
1 amor
1 existência


Quase não levo lembrancinhas. Nem sei direito porquê. Falta de grana. De espaço. Boas desculpas. Talvez seja porque a lembrancinha é tampa de panela. Quase como se. E eu quero é deixar caminhos abertos. Vão, vão logo. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Cavalo


Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo.

Todo mundo sabe (porque eu vi nos filmes e livros e todo mundo, no caso, sou eu) que há situações em que é preciso sacrificar o cavalo. Mesmo que você ame o cavalo. Que ele tenha sido vital pra sua sobrevivência nas pradarias. Que lhe carregue durante o dia e seu resfolegar manso lhe faça companhia nas noites. Que ele seja seu companheiro de estrada há muito tempo. Que ele tenha o pelo macio e o olhar morno e afetuoso. Se o cavalo enfia o pé no buraco e quebra a pata longe de tudo (ou mesmo perto, nos filmes e livros ainda não existem veterinários), é preciso sacrificá-lo. Dê um tiro logo nele. É a atitude corajosa. E generosa. A alternativa é uma longa e dolorosa agonia. Dê um tiro. Na cabeça. Entre os olhos. Sim, de frente para esse olhar vulnerável e perturbado – porque dói tanto? ele parece perguntar – mas, também, confiante de que você vai ter uma resposta. E a resposta é: acabe logo com isso. Dê um tiro. Faça a coisa certa, é o que o olhar diz, sem saber que a coisa certa é uma despedida definitiva.

Eu sempre me irritava com as pessoas que tinham dificuldade de tomar a decisão. Afinal, o certo e bom estava previamente definido. Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer, mesmo que este homem seja uma mulher. Eu sentia. Eu sabia. Superior. Ética. Dê logo esse tiro, eu esbravejava com o livro, com a tv, com a tela do cinema.

Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo. E ele enfia o pé no buraco.

E mesmo o certo e bom estando dado, você (que sou sempre eu) titubeia. A perna quebrada. A agonia. Mas. Afinal. Entretanto. O olhar do cavalo, no agora. As memórias do cavalo, no antes. As esperanças de montaria, mesmo infundadas, pro depois. E a gente (eu, eu) vacila. Arrodeia. Pondera. Procura alternativas. E se. Uma tala? Nem. Paliativos? Nem. Outra pessoa pra fazer o necessário? Nem. E o tempo latejando.

É preciso colocar a cabeça do cavalo no colo. Acariciar seu pescoço lentamente, olhando firme em seus olhos até que o afeto aja como anestesia temporária. Sentir o sal escorrer do seu olho para o dele. Encostar suavemente o cano na têmpora. Apertar, firme. Deixar a arma deslizar, abraçar aquele corpo íntimo até senti-lo frio. Empilhar pedras. Colocar a sela nas costas.

E ter cuidado para não enfiar o pé em um buraco sem ter alguém melhor que você por perto.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Trânsito

Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Sempre fui das partidas com gosto de queria ficar mais um pouco.

Nunca. Sempre. A gente (a gente sou eu, eu, eu) pensa que os definitivos são confiáveis. Mas viver é em relação. E um dia você esbarra em um sentimento diferente. Ou nem. Uma forma de viver o sentimento diferente. Com uma intensidade silenciosa. Constante. Áreas cinzentas. Uma dor que não quer ser confortada. Areia movediça. Esperneio e afundo mais rápido ou simplesmente espero, em agonia, o engasgo completo.

Tudo que poderia ter sido. Mas lidar com futuros e pretéritos nunca foi seu forte. Ainda mais conjugados. Um presente tão avassalador que me rouba as escassas memórias. Fica na pele. E as canções. Como essa, tão ligeiramente citada e, ao mesmo tempo, tão precisa.

Recito, suavemente, a oração do AA. Serenidade. Coragem. Sabedoria. Para acolher o vazio que será. Para aceitar ser uma pessoa que também se despede em dor. Para pisar suavemente. 



quinta-feira, 6 de abril de 2017

I'm a Believer

Se você, como eu, não conhece Londres, tenho duas coisas para lhe dizer. A primeira é que se for pra visitar curtinho, 3 dias e tal, nem vá ou vá e chore de saudades antes mesmo de sair da cidade. A segunda e mais importante é: Londres é a cidade mais avacalhada que você respeita.

Pode esquecer troca de guarda, poses sisudas, estátuas equestres. As ruas cheiram a comida boa e cerveja em riso, tem estátua de bode com úbere e, com sorte, você ganha um “não tem problema, my love” do motorista do ônibus quando você deixa cair seu cartão de transporte do outro lado do vidro.


 As pessoas correm. As pessoas andam de bicicleta. As pessoas lagarteiam ao sol. As pessoas bebem cervejas em copos mais apropriados para a prática do mergulho. Mas, principalmente, as pessoas sorriem. Gente, a vozinha da mulher do metrô, a cada estação, parece que está anunciando um festa. "Estação X, aqui você pode trocar de linha e explorar outro lado da cidade, pegar um trem sensacional para um local inusitado, viajar gostosinho de barco ou só descer pela região mesmo e tentar ser feliz. Se possível, dance". Talvez meu inglês não seja lá essas coisas pra fazer tradução mas eu juro que o sentido é esse.

Olha só: as pessoas tiram fotos com os guardas na porta dos monumentos. Não só com os guardinhas especiais, embonecados e todos duros da frente do palácio. Necas. Fotos com os guardas comuns da porta traseira de espaços resguardados como o Parlamento. E a guardinha ainda faz piada com o chupão alheio. Isso em tempos de segurança máxima, imagina aí quando atentados era uma nóia meio distante.

Banheiro de posto de gasolina de estrada, do lado de fora da lanchonete, que você tem que pedir a chave pro balconista? Londres tem, no The Orangery, restaurante onde se toma chá da tarde nos jardins do Palácio de Kensington. Vai com fé, pede a chavinha do banheiro. É um código, claro #evoluçõesdoprimeiromundo, mas o resto do esquema é o mesmo. Melhor lugar.

Vai, timidamente, pedir uma informação? A galera senta do teu lado e mostra no mapa. Vai, solene, tirar uma selfie com a estátua de Rodin, Os Burgueses de Calais? Tem adesivos dos smurfs na base (não na estátua, olha o respeito, má).

Claro que sem conhecer, como é o meu caso, fazer afirmações enfáticas pode soar ridículo ou falso pra quem conhece a cidade. Mas me arrisco porque não posso deixar de dizer que deve ser um dos lugares mais inclusivos. Não é só que tem a estrutura toda, informações em braile, sinais sonoros, calçadas padronizadas e talz. É a frequência com que as pessoas usam isso tudo e a naturalidade com a qual os demais parecem se relacionar com este uso.

É óbvio que em lugares assim todo o planejamento vai pro lixo e você esquece de "ver o que é essencial" e apenas passa a curtir o que é divertido. Não faz as compras, não tira fotos, não faz checkin. Apenas anda, come e gargalha. Tipo, muito.

Pode ser o sol contínuo por três dias. Pode ser sorte de principiante. Pode ser a passada na lojinha do Shrek. Mas a sensação que fica é de uma cidade em riso. Escancarado.


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